sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Face à crise: quatro princípios e quatro virtudes



Meu sentimento do mundo me diz que quatro princípios e quatro virtudes serão capazes de garantir um futuro bom para a Terra e à vida. Aqui apenas os enuncio sem poder aprofundá-los, coisa que fiz em várias publicações nos últimos anos.

Leonardo Boff

A frase de Einstein goza de plena atualidade: “o pensamento que criou a crise não pode ser o mesmo que vai superá-la”. É tarde demais para fazer só reformas. Estas não mudam o pensamento. Precisamos partir de outro, fundado em princípios e valores que possam sustentar um novo ensaio civilizatório. Ou então temos que aceitar um caminho que nos leva a um precipício. Os dinossauros já o percorreram.

Meu sentimento do mundo me diz que quatro princípios e quatro virtudes serão capazes de garantir um futuro bom para a Terra e à vida. Aqui apenas os enuncio sem poder aprofundá-los, coisa que fiz em várias publicações nos últimos anos.

O primeiro é o cuidado. É uma relação de não agressão e de amor à Terra e a qualquer outro ser. O cuidado se opõe à dominação que caracterizou o velho paradigma. O cuidado regenera as feridas passadas e evita as futuras. Ele retarda a força irrefreável da entropia e permite que tudo possa viver e perdurar mais. Para os orientais o equivalente ao cuidado é a compaixão; por ela nunca se deixa o outro que sofre abandonado, mas se caminha, se solidariza e se alegra com ele.

O segundo é o respeito. Cada ser possui um valor intrínseco, independetemente de seu uso humano. Expressa alguma potencialidade do universo, tem algo a nos revelar e merece exisitir e viver. O respeito reconhece e acolhe o outro como outro e se propõe a conviver pacificamente com ele. Ético é respeitar ilimitadamene tudo o que existe e vive.

O terceiro é a responsabilidade universal. Por ela, o ser humano e a sociedade se dão conta das consequências benéficas ou funestas de suas ações. Ambos precisam cuidar da qualidade das relações com os outros e com a natureza para que não seja hostil mas amigável à vida. Com os meios de destruição já construidos, a humanidade pode, por falta de responsabilidade, se autoeliminar e danificar a biosfera.

O quarto princípio é a cooperação incondicional. A lei universal da evolução não é a competição com a vitória do mais forte mas a interdependência de todos com todos. Todos cooperam entre si para coevoluir e para assegurar a biodiversidade. Foi pela cooperação de uns com os outros que nossos ancestrais se tornaram humanos. O mercado globalizado se rege pela mais rígida competição, sem espaço para a cooperação. Por isso, campeiam o individualismo e o egoismo que subjazem à crise atual e que impediram até agora qualquer consenso possível face às mudanças climáticas.

Os quatro princípios devem vir acolitados por quatro virtudes, imprescindíveis para a consolidação da nova ordem.

A primeira é a hospitalidade, virtude primacial, segundo Kant, para a república mundial. Todos tem o direito de serem acolhidos o que correspode ao dever de acolher os outros. Esta virtude será fundamental face ao fluxo dos povos e aos milhões de refugiados climáticos que surgirão nos próximos anos. Não deve haver, como há, extra-comunitários.

A segunda é a convivência com os diferentes. A globalização do experimento homem não anula as diferenças culturais com as quais devemos aprender a conviver, a trocar, a nos complementar e a nos enriquecer com os intercâmbios mútuos.

A terceira é a tolerância. Nem todos os valores e costumes culturais são convergentes e de fácil aceitação. Dai impõe-se a tolerância ativa de reconhecer o direito do outro de existir como diferente e garantir-lhe sua plena expressão.

A quarta é a comensalidade. Todos os seres humanos devem ter acesso solidário e suficiente aos meios de vida e à seguridade alimentar. Devem poder sentir-se membros da mesma família que comem e bebem juntos. Mais que a nutrição necessária, trata-se de um rito de confraternização.

Todos os esforços serão em vão se a Rio+20 de 2012 se limitar à discussão apenas de medidas práticas para mitigar o aquecimento global, sem discutir outros princípios e valores que podem gerar um consenso mínimo entre todos e assim conferir sustentabilidade à nossa civilização. Caso contrário, a crise continuará sua corrosão até se transformar num tragédia. Temos meios e ciência para isso. Só nos faltam vontade e amor à vida, à nossa, e a de nossos filhos e netos. Que o Espírito que preside à história, não nos falte.

Leonardo Boff é teólogo e escritor

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Desmatamento na Amazônia neste ano já supera o de 2010

FSP 03/08
Dados do Inpe mostram que tendência de queda foi revertida

CLAUDIO ANGELO
DE BRASÍLIA

O desmatamento na Amazônia reverteu sua tendência de queda em 2011.
Dados do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) divulgados nesta terça-feira mostram que o acumulado do ano até agora já foi 6% maior que o do ano passado inteiro.
Foram 2.429 km2 de agosto de 2010 a junho deste ano (11 meses), contra 2.295 km2 de agosto de 2009 a julho do ano passado (12 meses).
Ou seja, mesmo que em julho não caia uma só árvore na Amazônia, 2011 já terá batido 2010. Mas a possibilidade de desmatamento zero é remota, já que o mês de seca costuma ter mais devastação.
Em junho, os dados do sistema Deter indicaram um desmatamento de 312,69 km2. É um aumento de 28% em relação ao mesmo mês de 2010.
O ano passado registrou o menor desmate desde que o Inpe começou a série com satélites, em 1988: foram 6.451 km2 medidos pelo Prodes, sistema que dá a taxa oficial.
O Deter é mais rápido que o Prodes, mas, como não detecta pequenas áreas desmatadas, o governo evita usá-lo para cálculo de área. No entanto, o Deter permite estimar a tendência da devastação.
A série de dados do Deter indica que a reversão da tendência de queda do desmatamento começou em março.
Em abril, quando o debate sobre o Código Florestal começou a pegar fogo no Congresso, a devastação medida pelo Deter cresceu 835%.
Segundo o governo, expectativas do setor produtivo em relação à anistia a desmatadores, somadas ao mercado de commodities agrícolas aquecido e a uma lei de zoneamento complacente em Mato Grosso, foram os culpados.
Mas ações do próprio governo também estão se mostrando corresponsáveis pelo aumento no desmate. Entre os municípios mais desmatados em junho estão Porto Velho (RO) e Altamira (PA), o que pode refletir impactos de novas hidrelétricas na região.
O diretor de Políticas de Combate ao Desmatamento do ministério, Mauro Pires, reconhece a reversão, mas diz que as ações de fiscalização do governo no Pará e em Mato Grosso após o pico de desmatamento de abril estão surtindo efeito.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Japão mostra que é possível viver sem tanta eletricidade



Peter Landers The Wall Street Journal, de Tóquio
01/08/2011

Quando o tsunami de 11 de março tirou de operação mais da metade das usinas nucleares que alimentam a região metropolitana de Tóquio, isso gerou uma das maiores experiências não planejadas já realizadas numa sociedade moderna: será que uma metrópole de 30 milhões de pessoas consegue funcionar depois de perder cerca de um quinto de seu suprimento elétrico?

Depois de um julho calorento no Japão, repleto de dias acima de 32 graus centígrados, a resposta preliminar já está disponível e ela é sim. Não apenas a Tokyo Electric Power Co. tem mantido as luzes acesas o verão inteiro até agora, como teve tanta capacidade extra na maioria dos dias que também poderia abastecer a cidade de Nova York.

O impacto econômico que muitos temiam que viria com os apagões não aconteceu. As bolsas japonesas se recuperaram para praticamente o nível de antes do terremoto, a economia voltou a crescer e algumas empresas foram até revigoradas pela demanda por produtos com consumo menor de eletricidade.

Poupar eletricidade se tornou uma religião nacional. Com muitos aparelhos de ar condicionado limitados a 27 graus centígrados, os empresários abandonaram os ternos habituais em favor de camisas de manga curta incentivadas pela campanha governamental "Super Cool Biz". As montadoras têm sido forçadas a operar nos finais de semana para não sugar eletricidade demais nos horários de pico durante a semana.

O consumo máximo de eletricidade da região de Tóquio tem sido 23% menor neste verão que no do ano passado.

O declínio do consumo elétrico está enfraquecendo o compromisso japonês de décadas com a energia nuclear, que até este ano fornecia quase 30% da eletricidade do país. Se o país conseguir passar pelas últimas semanas de verão com o suprimento elétrico reduzido, o acidente com a usina Fukushima Daiichi provavelmente vai transformar a política energética do Japão. Isso terá consequências mundiais, já que muitos países estão repensando a energia nuclear diante do pior desastre radioativo desde Chernobyl, em 1986.

Há uma sensação crescente de que o Japão vai depender cada vez menos das usinas nucleares e pode desligá-las inteiramente um dia, dizem políticos e muitos empresários. A Alemanha e a Suíça já anunciaram seus planos para fechar as usinas, enquanto os líderes dos Estados Unidos e da França, os dois países que mais usam energia nuclear, dizem que planejam manter seus reatores em funcionamento.

"No médio e longo prazo é desejável progredir para diminuir a energia nuclear com o fechamento de nossos reatores mais antigos e o incentivo a fontes renováveis", afirmou a Associação de Executivos do Japão num comunicado após sua reunião de julho.

Há quem queira ainda mais. "Acho que é melhor nem ter energia nuclear", disse Hiroshi Mikitani, o bilionário de 46 anos que comanda a empresa de comércio eletrônico Rakuten Inc., e também um dos maiores expoentes de uma nova geração de executivos japoneses. Mikitani disse que não é a favor de fechar todas as usinas nucleares de vez, mas que os acontecimentos do verão abalaram a confiança que os japoneses tinham na indústria nuclear.

O sucesso do Japão em evitar um apagão se deve tanto à oferta maior quanto à demanda menor. A Tokyo Electric Power, conhecida como Tepco, correu para reativar velhas termelétricas a gás e a carvão, interrompendo rapidamente os apagões programados que Tóquio enfrentou nos primeiros dias depois do terremoto. Enquanto isso, a campanha para poupar eletricidade reduziu em 10.000 megawatts a demanda da região de Tóquio nos horários de pico de vários dias.

Essas medidas têm suas desvantagens. As termelétricas emitem mais gases do efeito estufa e o Japão precisa importar o combustível para elas. Isso encarece o custo da eletricidade, embora a alta do iene diminua esse fardo.

E alguns idosos estão exagerando na economia de eletricidade e se arriscam a ter problemas de saúde associados ao excesso de calor. No Palácio Imperial, o imperador e a imperatriz, ambos quase com 80 anos, chegaram a usar apenas velas e lanternas à noite, segundo um porta-voz do palácio. Ambulâncias trouxeram 22.418 pessoas com problemas médicos ligados ao calor para os hospitais até 24 de julho, segundo a Agência de Gerenciamento de Incêndios e Desastres do Japão. Quase metade era de idosos e 43 pessoas morreram. O número de pacientes sofrendo com o calor é mais de 50% maior que o do ano passado, mas o total de mortes é um terço menor.

Os executivos das empresas de eletricidade e alguns líderes empresariais dizem que o esforço para poupar eletricidade, obrigatório para as grandes empresas na região de Tóquio, atrapalha a produção a gera incerteza. "Acho que é uma conclusão apressada dizer que não precisamos de usinas nucleares porque temos eletricidade suficiente", disse ao Wall Street Journal Zengo Aizawa, vice-presidente executivo da Tepco e um dos principais executivos do setor nuclear do país. "O Japão é um país que vive de produzir coisas, e a produção está sofrendo muito com isso."

Mesmo assim, para um corte tão grande no consumo de eletricidade, o prejuízo à economia parece relativamente pequeno.

O vice-presidente do banco central japonês, o Banco do Japão, Hirohide Yamaguchi, disse em 20 de julho que a escassez de eletricidade "não deve restringir a atividade econômica até o ponto que se esperava antes", e o BC prevê uma recuperação moderada nos próximos meses e crescimento de 2,9% ano que vem. A capital japonesa está funcionando praticamente como de costume, com filas nas lojas de eletrônicos e trens lotados para as áreas de recreação.

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quinta-feira, 21 de julho de 2011

A logistica do lixo




Valor 21/07/2011

De todos os problemas que mais afligem o meio urbano no Brasil, o lixo desponta entre os itens prioritários na agenda municipal e ganha status como fonte de negócios. Pela nova lei federal do setor, aprovada no ano passado, as prefeituras são obrigadas a elaborar planos para a gestão de resíduos até agosto de 2012, sem os quais não terão acesso a recursos da União. Aos aterros sanitários só poderá ser destinado o material não reciclável. E os lixões a céu aberto, existentes em mais da metade das cidades brasileiras, precisam estar erradicados em 2014.
As novas obrigações impõem mudanças de práticas gerenciais e planejamento, tanto por parte do governo, como das empresas. Surgem oportunidades para investimentos, com a perspectiva de uma nova política de incentivos para o setor - tema do seminário "Gestão dos Resíduos Sólidos Urbanos", que será realizado hoje em Salvador pela Federação das Indústrias do Estado da Bahia (Fieb), em parceria com o Valor.
Novos recursos serão injetados para ampliar a coleta seletiva nas residências, enterrar lixo em área adequada, instalar usinas de incineração para gerar energia, construir cooperativas de catadores e mobilizar a população. De acordo com estimativa do Ministério do Meio Ambiente (MMA), são necessários investimentos em torno de R$ 8,5 bilhões, nos próximos três anos, para a legislação sair do papel e mudar o cenário do lixo no país. O número representa quase metade do mercado nacional de limpeza urbana já instalado, que no ano passado teve faturamento de R$ 19 bilhões.
"Os planos municipais começam a definir os rumos dos investimentos", afirma Carlos Silva, diretor da Associação Brasileira das Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe). "É grande a perspectiva de expansão diante do grande volume de lixo gerado no país ainda sem uma solução adequada", avalia o executivo, lembrando que o Reino Unido, por exemplo, produz 90% menos resíduos que o Brasil, mas tem números de mercado praticamente iguais. O faturamento brasileiro é quatro vezes inferior ao da China, de acordo com a Abrelpe.
O crescimento econômico, com reflexos no consumo e na maior geração de resíduos, desenha o cenário. De olho nas oportunidades, empresas do setor adotam a estratégia de orientar prefeituras na elaboração dos planos municipais de resíduos e nos caminhos para torná-los viáveis. Pela legislação, os estudos devem incluir um diagnóstico da situação do lixo, metas para redução e reciclagem, mapeamento dos principais geradores, educação ambiental, custos e modelos de coleta seletiva e indicadores para medir o desempenho do serviço. Com 21 itens em seu conteúdo mínimo, o plano pode ter versão simplificada para cidades com menos de 20 mil habitantes. "Mas a maioria dos municípios ainda está alheia a essa obrigação", diz Silva.
"Com a nova lei, a lógica da limpeza urbana, antes restrita à coleta e disposição em aterro, muda completamente", argumenta o executivo. O trabalho envolve também reduzir a geração, fazer a reciclagem e, em alguns casos, transformar o que não é reciclável em energia. Em sua opinião, "apenas acabar com os lixões não resolve o problema, que abrange outros desafios, como soluções para o alto custo da coleta seletiva e a incorporação de tecnologias". Para fechar a conta, Silva defende taxar a população pelo serviço do lixo, cobrança hoje adotada por apenas 4% dos municípios.
Segundo ele, os contratos de concessão com empresas de limpeza urbana devem se adaptar à lei. Uma possibilidade é a remuneração das empresas não mais por tonelada de lixo coletado, mas pela qualidade do serviço, aferida nas ruas por fiscais ou até por câmeras fotográficas, como em Paris. No Brasil, 80% da coleta municipal do lixo é operada por empresas, participação que no recolhimento dos materiais recicláveis é inferior a 10%, diz Abrelpe. A tendência é de ampliação, com participação de cooperativas de catadores. A lei da Política Nacional de Resíduos Sólidos prioriza o acesso a recursos federais para municípios que façam parceria com essa força de trabalho.
Há diferentes modelos em jogo. Relatório da empresa de consultoria Pinheiro Pedro Advogados, que inspirou alguns itens da nova lei, indica a parceria público-privada como formato para tornar os investimentos viáveis, diante da falta de recursos públicos. "Os municípios não conseguirão atuar sozinhos", afirma o consultor Antônio Pinheiro, co-autor de um estudo em fase de conclusão para o Banco Mundial sobre a viabilidade econômica da gestão de resíduos no Brasil. "Sob o ponto de vista financeiro, aterros sanitários só são vantajosos quando recebem lixo em grande escala, acima de 250 toneladas por dia", informa o analista. A saída, segundo ele, é o consórcio de pequenos municípios para uso comum dessas áreas.
Em recente audiência pública no Senado, o presidente da Confederação Nacional dos Municípios, Paulo Ziulkoski, disse que as prefeituras dificilmente conseguirão cumprir os prazos da lei se não tiverem R$ 52 bilhões para transformar os lixões em aterros sanitários até 2014. "O prazo é apertado, factível para a contratação dos novos projetos, mas não para a sua execução", admite Nabil Bonduki, secretário de recursos hídricos e ambiente urbano do MMA.
Ele informa que o governo federal começou a assinar convênios com Estados para a elaboração de planos intermunicipais com meta de envolver 344 conjuntos de cidades em todo o país, ao custo estimado de R$ 190 milhões. "É o primeiro passo para a formação dos consórcios", explica Bonduki, para quem, até dezembro, o governo concluirá o plano nacional de resíduos. "A perspectiva é tratar o lixo como recurso e não como problema, o que exige racionalizar o uso dos aterros sanitários", diz.
"Faltam indicadores para sabermos o tamanho do atraso", adverte Maurício Broinizi, do Movimento Nossa São Paulo, entidade que tem planos de fazer um diagnóstico e mapeamento dos resíduos e cooperativas de catadores na capital paulista, em parceria com empresas. O objetivo é seguir o modelo de Los Angeles (EUA), que desde 2007 reduziu em 63% o lixo levado para aterros, mediante a aliança de governo e iniciativa privada. Em sua análise, a coleta seletiva no Brasil precisa de escala para permitir o desenvolvimento da indústria de reciclagem e o peso de São Paulo nesse processo, pelo tamanho da população e da riqueza econômica, seria decisivo.




Cooperativa baiana instala fábrica



Além de coletar e separar materiais recicláveis, a Caec (Cooperativa dos Agentes Ecológicos de Canabrava) irá fabricar produtos a partir do lixo. A cooperativa está instalando uma fábrica de biodiesel obtido a partir do óleo de cozinha e uma unidade para produzir água sanitária com embalagem de plástico reciclado, aumentando os ganhos em até 40%.
A indústria está em fase de implantação e a ideia vem da demanda do Movimento Nacional de Catadores de Materiais Recicláveis (MNCR) de fazer com que o catador participe das etapas da reciclagem além da catação.
"Hoje a Caec possui uma usina de biodiesel através de óleos e gorduras recicláveis, uma fábrica de sabão que usará o resíduo da usina de biodiesel como principal matéria-prima, uma fábrica de garrafas para água sanitária, que também pode ser utilizada para processamento de flakes de polietileno e fabricação da própria água sanitária, e uma fábrica de caixas e porta-chopp ("bolachas") com papelões recicláveis que também produzirá caixas para água sanitária e sabão", explica a gerente social da cooperativa, Gabriela Macedo.
Todos esses projetos estão em fase de licenciamento ambiental. Segundo a gerente, a principal dificuldade encontrada para a implementação dos novos processos está na burocracia estatal para os licenciamentos.
A Caec conta com 200 instituições parceiras, a maioria contribui com doação de recicláveis e algumas, como a Petrobras, com apoio na estruturação da cooperativa. "Com o auxílio dos parceiros conseguimos a aquisição de mais uma esteira de triagem e a construção de mais dois galpões para melhor organização da produção. Também foram adquiridos, através dos parceiros, mais uma empilhadeira de 2,5 toneladas e mais três prensas. Com isto, hoje a Caec consegue reciclar mensalmente 700 toneladas de resíduos sólidos", conta.
A Caec surgiu em março de 2003 e é formada por catadores das ruas e do extinto lixão de Canabrava, em Salvador, Bahia. Hoje, eles estão organizados e capacitados para o mercado de reciclagem. "A iniciativa está legitimando e qualificando a atividade dos catadores para fins de inclusão social, transformando lixo em trabalho digno para muitas pessoas", comenta Gabriela.
Atualmente, a cooperativa tem 234 associados, para quem a renda é distribuída de forma igualitária. No exercício de 2010, a renda média mensal de cada cooperado foi de R$ 540.
O centro de triagem da Caec tem capacidade de processar e armazenar materiais recicláveis como papel, plástico, metal e vidro, além de realizar uma primeira fase da reciclagem de plástico. "O nosso objetivo é fomentar o protagonismo dos catadores, visando alcançar a auto-sustentabilidade do empreendimento", afirma. (A.F.)




terça-feira, 5 de julho de 2011

Caí no Mundo e não sei como voltar

Caí no Mundo e não sei como voltar

Eduardo Galeano

Jornalista e escritor uruguaio
O que acontece comigo é que não consigo andar pelo mundo pegando coisas e trocando-as pelo modelo seguinte só por que alguém adicionou uma nova função ou a diminuiu um pouco…

Não faz muito, com minha mulher, lavávamos as fraldas dos filhos, pendurávamos na corda junto com outras roupinhas, passávamos, dobrávamos e as preparávamos para que voltassem a serem sujadas.
E eles, nossos nenês, apenas cresceram e tiveram seus próprios filhos se encarregaram de atirar tudo fora, incluindo as fraldas. Se entregaram, inescrupulosamente, às descartáveis!

Sim, já sei. À nossa geração sempre foi difícil jogar fora. Nem os defeituosos conseguíamos descartar! E, assim, andamos pelas ruas, guardando o muco no lenço de tecido, de bolso.
Nããão! Eu não digo que isto era melhor. O que digo é que, em algum momento, me distraí, caí do mundo e, agora, não sei por onde se volta.

O mais provável é que o de agora esteja bem, isto não discuto. O que acontece é que não consigo trocar os instrumentos musicais uma vez por ano, o celular a cada três meses ou o monitor do computador por todas as novidades.
Guardo os copos descartáveis! Lavo as luvas de látex que eram para usar uma só vez.

Os talheres de plástico convivem com os de aço inoxidável na gaveta dos talheres! É que venho de um tempo em que as coisas eram compradas para toda a vida!

É mais! Se compravam para a vida dos que vinham depois! A gente herdava relógios de parede, jogos de copas, vasilhas e até bacias de louça.
E acontece que em nosso, nem tão longo matrimônio, tivemos mais cozinhas do que as que haviam em todo o bairro em minha infância, e trocamos de refrigerador três vezes.

Nos estão incomodando! Eu descobri! Fazem de propósito! Tudo se lasca, se gasta, se oxida, se quebra ou se consome em pouco tempo para que possamos trocar.
Nada se arruma. O obsoleto é de fábrica.
Aonde estão os sapateiros fazendo meia-solas dos tênis Nike? Alguém viu algum colchoeiro encordoando colchões, casa por casa? Quem arruma as facas elétricas? o afiador ou o eletricista? Haverá teflon para os funileiros ou assentos de aviões para os talabarteiros?

Tudo se joga fora, tudo se descarta e, entretanto, produzimos mais e mais e mais lixo. Outro dia, li que se produziu mais lixo nos últimos 40 anos que em toda a história da humanidade.

Quem tem menos de 30 anos não vai acreditar: quando eu era pequeno, pela minha casa não passava o caminhão que recolhe o lixo! Eu juro! E tenho menos de ... anos! Todos os descartáveis eram orgânicos e iam parar no galinheiro, aos patos ou aos coelhos (e não estou falando do século XVII). Não existia o plástico, nem o nylon. A borracha só víamos nas rodas dos autos e, as que não estavam rodando, as queimávamos na Festa de São João. Os poucos descartáveis que não eram comidos pelos animais, serviam de adubo ou se queimava..
Desse tempo venho eu.  E não que tenha sido melhor.... É que não é fácil para uma pobre pessoa, que educaram com "guarde e guarde que alguma vez pode servir para alguma coisa", mudar para o "compre e jogue fora que já vem um novo modelo".
Troca-se de carro a cada 3 anos, no máximo, por que, caso contrário, és um pobretão. Ainda que o carro que tenhas esteja em bom estado... E precisamos viver endividados, eternamente, para pagar o novo!!! Mas... por amor de Deus!
Minha cabeça não resiste tanto. Agora, meus parentes e os filhos de meus amigos não só trocam de celular uma vez por semana, como, além disto, trocam o número, o endereço eletrônico e, até, o endereço real.

E a mim que me prepararam para viver com o mesmo número, a mesma mulher e o mesmo nome (e vá que era um nome para trocar). Me educaram para guardar tudo. Tuuuudo! O que servia e o que não servia. Por que, algum dia, as coisas poderiam voltar a servir.

Acreditávamos em tudo. Sim, já sei, tivemos um grande problema: nunca nos explicaram que coisas poderiam servir e que coisas não. E no afã de guardar (por que éramos de acreditar), guardávamos até o umbigo de nosso primeiro filho, o dente do segundo, os cadernos do jardim de infância e não sei como não guardamos o primeiro cocô.

Como querem que entenda a essa gente que se descarta de seu celular a poucos meses de o comprar? Será que quando as coisas são conseguidas tão facilmente, não se valorizam e se tornam descartáveis com a mesma facilidade com que foram conseguidas?
Em casa tínhamos um móvel com quatro gavetas. A primeira gaveta era para as toalhas de mesa e os panos de prato, a segunda para os talheres e a terceira e a quarta para tudo o que não fosse toalha ou talheres. E guardávamos...

Como guardávamos!! Tuuuudo!!! Guardávamos as tampinhas dos refrescos!! Como, para quê?  Fazíamos limpadores de calçadas, para colocar diante da porta para tirar o barro. Dobradas e enganchadas numa corda, se tornavam cortinas para os bares. Ao fim das aulas, lhes tirávamos a cortiça, as martelávamos e as pregávamos em uma tabuinha para fazer instrumentos para a festa de fim de ano da escola.

Tuuudo guardávamos! Enquanto o mundo espremia o cérebro para inventar acendedores descartáveis ao término de seu tempo, inventávamos a recarga para acendedores descartáveis. E as Gillette até partidas ao meio se transformavam em apontadores por todo o tempo escolar. E nossas gavetas guardavam as chavezinhas das latas de sardinhas ou de corned-beef, na possibilidade de que alguma lata viesse sem sua chave.
E as pilhas! As pilhas das primeiras Spica passavam do congelador ao telhado da casa. Por que não sabíamos bem se se devia dar calor ou frio para que durassem um pouco mais. Não nos resignávamos que terminasse sua vida útil, não podíamos acreditar que algo vivesse menos que um jasmim. As coisas não eram descartáveis. Eram guardáveis.

Os jornais!!! Serviam para tudo: para servir de forro para as botas de borracha, para por no piso nos dias de chuva e por sobre todas as coisa para enrolar.

Às vezes sabíamos alguma notícia lendo o jornal tirado de um pedaço de carne!!! E guardávamos o papel de alumínio dos chocolates e dos cigarros para fazer guias de enfeites de natal, e as páginas dos almanaques para fazer quadros, e os conta-gotas dos remédios para algum medicamento que não o trouxesse, e os fósforos usados por que podíamos acender uma boca de fogão (Volcán era a marca de um fogão que funcionava com gás de querosene) desde outra que estivesse acesa, e as caixas de sapatos se transformavam nos primeiros álbuns de fotos e os baralhos se reutilizavam, mesmo que faltasse alguma carta, com a inscrição a mão em um valete de espada que dizia "esta é um 4 de bastos".

As gavetas guardavam pedaços esquerdos de prendedores de roupa e o ganchinho de metal. Ao tempo esperavam somente pedaços direitos que esperavam a sua outra metade, para voltar outra vez a ser um prendedor completo.

Eu sei o que nos acontecia: nos custava muito declarar a morte de nossos objetos. Assim como hoje as novas gerações decidem matá-los tão-logo aparentem deixar de ser úteis, aqueles tempos eram de não se declarar nada morto: nem a Walt Disney!!!

E quando nos venderam sorvetes em copinhos, cuja tampa se convertia em base, e nos disseram: Comam o sorvete e depois joguem o copinho fora, nós dizíamos que sim, mas, imagina que a tirávamos fora!!! As colocávamos a viver na estante dos copos e das taças. As latas de ervilhas e de pêssegos se transformavam em vasos e até telefones. As primeiras garrafas de plástico se transformaram em enfeites de duvidosa beleza. As caixas de ovos se converteram em depósitos de aquarelas, as tampas de garrafões em cinzeiros, as primeiras latas de cerveja em porta-lápis e as cortiças esperaram encontrar-se com uma garrafa.

E me mordo para não fazer um paralelo entre os valores que se descartam e os que preservávamos. Ah!!! Não vou fazer!!!
Morro por dizer que hoje não só os eletrodomésticos são descartáveis; também o matrimônio e até a amizade são descartáveis. Mas não cometerei a imprudência de comparar objetos com pessoas.

Me mordo para não falar da identidade que se vai perdendo, da memória coletiva que se vai descartando, do passado efêmero. Não vou fazer.
Não vou misturar os temas, não vou dizer que ao eterno tornaram caduco e ao caduco fizeram eterno.
Não vou dizer que aos velhos se declara a morte apenas começam a falhar em suas funções, que aos cônjuges se trocam por modelos mais novos, que as pessoas a que lhes falta alguma função se discrimina o que se valoriza aos mais bonitos, com brilhos, com brilhantina no cabelo e glamour.

Esta só é uma crônica que fala de fraldas e de celulares. Do contrário, se misturariam as coisas, teria que pensar seriamente em entregar à bruxa, como parte do pagamento de uma senhora com menos quilômetros e alguma função nova. Mas, como sou lento para transitar este mundo da reposição e corro o risco de que a bruxa me ganhe a mão e seja eu o entregue...
Eduardo Galeano
* Jornalista e escritor uruguaio