terça-feira, 16 de agosto de 2011

GATO POR LEBRE



Por Jose Eli da Veiga - Valor 16/08

"Tudo que cresce aumenta de tamanho", truísmo adorado pelo conselheiro Acácio e pura tautologia na lógica, é o inverso para o cânone da teoria econômica.

Procure-se nas bíblias dessa disciplina as respostas a três indagações: (1) o que aumenta quando a economia cresce? (2) de que tamanho ela está agora? (3) de que tamanho deveria ser, ou qual tamanho poderia atingir?

Dada a monumental importância do crescimento econômico para as sociedades contemporâneas, seria de se esperar reações diretas e precisas às três perguntas. Todavia, só a primeira é ingenuamente respondida. As outras nem sequer chegam a ocorrer à imensa maioria dos economistas. Muitos até as consideram irrelevantes ou ilegítimas.

A resposta 1) é obviamente o Produto Interno Bruto (PIB), que mede o fluxo anual das transações mercantis de produtos e serviços. Só que ele não dá conta de seu próprio fundamento: o fluxo metabólico de matéria e energia que sai do ambiente e a ele retorna como rejeito, depois de atravessar esse subsistema chamado de economia (produção e consumo).

Nos anos 1960, alguns poucos pioneiros chamaram a atenção para o reducionismo da dupla "input/output", pois deixa de lado a crucial importância do biofísico "throughput". Meio século depois, o próprio termo continua estranho a um jargão profissional inteiramente dominado pelo fetichismo mercadológico.

Aí está, contudo, o cerne da questão. Pois é muito mais esse "transumo" do que o casalzinho insumo/produto a chave para encontrar respostas coerentes às três perguntas.

2) Considerando-se os processos naturais que regeneram os recursos básicos da economia, absorvem suas emissões, e prestam inúmeros outros serviços ambientais, que tamanho relativo tem hoje o fluxo metabólico? As evidências científicas indicam que a economia global já está grande demais para o ecossistema que a sustenta.

3) Que tamanho pode atingir? Qual pode ser a dimensão desse subsistema para que não aniquile seus próprios fundamentos naturais? Qual é a escala adequada ao ecossistema?

Aparentemente só se saberá depois do temerário teste empírico em curso. No entanto, para que os economistas fossem levados a sério, a resposta a esse tipo de indagações deveria ter surgido antes que os custos começassem a exceder os benefícios que podem gerar. Coisa que o PIB é incapaz de mostrar, pois é algo que esteve inteiramente ausente de sua própria concepção. Além da substituição do produto pelo consumo para medir o desempenho econômico, é indispensável que seja calculada a sua pegada ecológica.

O aumento do PIB já se tornou antieconômico em vários países do primeiro mundo. Um crescimento que mais acumula mazelas do que acrescenta riquezas. Mas não faltam economistas para garantir que o aumento do produto tende a se desvincular do aumento do transumo, proeza apelidada de "descasamento" ("decoupling").

Pretendem não saber que isso só ocorre em termos relativos, não absolutos. O exemplo mais eloquente é a brutal saturação da atmosfera com gases de efeito estufa, simultânea ao ganho de eficiência energética com forte redução da intensidade-carbono da economia global. Só poderia ter sido diferente com estabilização do consumo.

O mais curioso, porém, é supor - na contramão das evidências - que o avanço tecnológico um dia engendre descasamento absoluto. Haveria razão suplementar para se limitar o transumo. Pois, hipoteticamente, seria absurdo aceitar o correspondente prejuízo ambiental, já que seu aumento teria se tornado desnecessário à prosperidade.

Em suma: no desespero de insistir que as economias da vanguarda do primeiro mundo devem continuar a crescer, nada pode ser mais tolo do que desencarnar ou angelizar o PIB.

Praticamente tudo o que foi dito acima é da lavra de Herman Daly, professor emérito da Escola de Políticas Públicas da Universidade de Maryland (EUA). Em livre adaptação de seu prefácio ao livro "Prosperidade sem crescimento", do colega Tim Jackson, da Universidade de Surrey (RU).

Por que evocar aqui e agora essas considerações de Daly? Porque não há melhor maneira de explicitar o caráter eufemístico da expressão "economia verde". Seus usuários nem sempre estão conscientes de que um dos maiores desafios da atualidade é levar as sociedades mais avançadas a superar a obsessão pelo crescimento econômico. E tem sido muito frequente a tentativa de esconder esse imenso desafio histórico, propondo-se gato por lebre: a ilusão do descasamento absoluto embrulhado como economia verde.

Claro, isso não deve impedir o uso de tão boa imagem de marca na promoção de iniciativas favoráveis à sustentabilidade. Todavia, no processo preparatório à cúpula global de junho sobre o desenvolvimento sustentável (Rio+20), há que se separar o joio do trigo. Os lobbies que estão pautando os debates fazem de tudo para que o principal seja ocultado: a inevitabilidade de uma mudança macroeconômica que será equivalente àquela que no século passado foi engendrada pelos pactos políticos de Bretton Woods combinados à vitória ideológica do keynesianismo.

José Eli da Veiga, professor da pós-graduação do Instituto de Relações Internacionais da USP (IRI/USP) e do mestrado profissional em sustentabilidade do Instituto de Pesquisas Ecológicas (IPÊ)

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Futuro do Protocolo de Kyoto será prioridade na cúpula do clima

Valor 10/08
A próxima conferência internacional do clima, em Durban, na África do Sul, centrará seu foco no destino do Protocolo de Kyoto. O acordo internacional, que dividiu o mundo entre países ricos, com obrigações de reduzir as emissões de gases-estufa, e os outros, sem compromissos mandatórios, começou a funcionar em 2008. Se não for renovado, expira em 2012. Durban é a última oportunidade de salvar Kyoto. Sem ele, desaparece o único acordo climático internacional que existe. A decisão tem dia marcado: 9 de dezembro.

É quando termina a CoP-17, o encontro anual que reúne negociadores do mundo todo para discutir um acordo climático internacional, desta vez, na África do Sul.

"O mais importante para Durban é definir o segundo período do Protocolo de Kyoto", diz uma fonte do governo brasileiro. "Se ele não se confirmar, a negociação climática entra em um limbo muito perigoso", prossegue. "Podem ficar só os defeitos de Kyoto e nenhuma de suas qualidades."

A qualidade do Protocolo de Kyoto, no entendimento do governo brasileiro, é que ele acentua a responsabilidade dos países industrializados sobre a mudança climática - um argumento do gênero "a culpa é deles". Boa parte dos gases-estufa que estão na atmosfera e que já causam o aquecimento da Terra foram emitidos há mais de 100 anos pelas nações mais ricas. Foi esse argumento que baseou o princípio das "responsabilidades comuns, porém diferenciadas", que está na Convenção do Clima, e diz que todos os países são responsáveis pelo problema, mas de jeito diferente. Por este entendimento, os mais ricos têm que pagar a conta, transferir tecnologias limpas e reduzir suas emissões. Isso ficou acordado pelo Protocolo de Kyoto, assinado em 1997.

Por Kyoto, os países industrializados reduziriam suas emissões de gases de efeito estufa em pelo menos 5% em relação a 1990, no período 2008-2012. O Protocolo criou na Europa um mercado de licenças para emitir e créditos de carbono. Surgiu o Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL), que permitia aos países emissores reduzirem suas emissões em algum país em desenvolvimento, investindo em tecnologias limpas e produzindo créditos de carbono.

O Protocolo tem vários problemas. O principal é que os Estados Unidos nunca o aceitaram internamente, o que faz com que a Europa lide sozinha com o ônus do aquecimento. Em tempos de crise econômica, isso pesa mais. O surgimento de economias emergentes - e muito emissoras - como China, Índia e Brasil, não contempladas por Kyoto, é outro ponto de tensão. O Protocolo é modesto demais - 5% de corte está longe de resolver a questão. Hoje Japão, Canadá e Austrália querem as mesmas prerrogativas dos EUA e dos emergentes - abandonar Kyoto e ter apenas compromissos voluntários. "Se Kyoto não tiver continuidade, mata-se a origem da necessidade dos créditos e morre o MDL", diz a fonte do governo. É mais que isso. "Ficará como símbolo do fracasso na questão do clima".

Em Durban, os países em desenvolvimento exigirão, novamente, que os ricos apresentem seus compromissos de cortes nas emissões para depois de 2012. "Sem isso, só haverá uma negociação onde cada um declara o que pode fazer. Todos os países estarão negociando em situação similar, o fato de uns serem ricos não os obrigará a nada."

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

NIÓBIO, METAL ESTRATÉGICO


Por Adriano Benayon

Está em nosso País a quase totalidade das jazidas conhecidas no Planeta do nióbio, minério essencial para as indústrias aeronáutica e aeroespacial, para a indústria nuclear, inclusive armas e seus mísseis. A atual tecnologia faz o nióbio, graças à sua superioridade substituir metais, como molibdênio, vanádio, níquel, cromo, cobre e titânio, em diversas outros setores industriais.

2. Embora a maioria das pessoas nem saiba o que é nióbio ou para que serve, esse mineral mostra emblematicamente, como o País, extremamente rico em recursos naturais, permanece pobre, além de perder, sem volta, esses recursos, e de se estar desindustrializando, sobre tudo nos setores de maior conteúdo tecnológico.

3. A primarização da economia brasileira é fato confirmado até nas estatísticas oficiais. O Brasil está cada vez mais importando produtos de elevado valor agregado e exportando, com pouco ou nenhum valor agregado, seus valiosos recursos naturais.

4. Isso acarreta baixos níveis salariais no País e também a gestação de crises nas contas externas, cujo equilíbrio sempre dependeu de grandes saldos (que agora estão definhando) no balanço das mercadorias, para compensar o déficit crônico nas contas de “serviços” e de “rendas” do Balanço de Pagamento.

5. O que está por acontecer de novo já ocorreu antes, quando a oligarquia financeira mundial atirou o Brasil na crise da dívida externa de 1982/1987. Os prejuízos decorrentes dessa crise foram grandemente acrescidos com o privilegiamento do “serviço da dívida” no Orçamento Federal, instituído por meio de fraude, no texto da Constituição de 1988. Esse “serviço” já acarretou despesa, desde então, de 6 trilhões (sim, trilhões) de reais, com a dívida pública externa e interna, esta derivada daquela.

6. Tudo isso concorreu para agravamento da situação gerada pelo defeito original do modelo: ter, desde 1954, favorecido os investimentos diretos estrangeiros com subsídios e vantagens maiores que os utilizáveis por empresas de capital nacional. Estas foram sendo eliminadas em função da política econômica governamental. As que restaram tornaram-se caudatárias das transnacionais e de interesses situados no exterior. Vê-se, pois, a conexão entre os grandes vetores de empobrecimento e de primarização da economia nacional

7. O niobio é tão indispensável quanto o petróleo para as economias avançadas e provavelmente ainda mais do que ele. Além disso, do lado da oferta, é como se o Brasil pesasse mais do que todos os países da OPEP juntos, pois alguns importantes produtores não fazem parte dela.

Números

8. Cerca de 98% das reservas da Terra estão no Brasil. Delas, pois, depende o consumo mundial do nióbio. A produção, cresceu de 25,8 mil tons. em 1997 para 44,5 mil tons., em 2006. Chegou a quase 82 mil tons. em 2007, caindo para 60,7 mil tons., em 2008, com a depressão econômica (dados do Departamento Nacional de Produção Mineral). Estima-se atualmente 70 mil toneladas/ano. Mas a estatística oficial das exportações brasileiras aponta apenas 515 toneladas do minério bruto, incluindo “nióbio, tântalo ou vanádio e seus concentrados”!

9. Fontes dignas de atenção indicam que o minério de nióbio bruto era comprado no garimpo a 400 reais/quilo, cerca de U$ 255,00/quilo (à taxa de câmbio atual e atualizada a inflação do dólar).

10. Ora, se o Brasil exportasse o minério de nióbio a esse preço, o valor anual seria US$ 15.300.000.000 (quinze bilhões, trezentos milhões de dólares). Se confrontarmos essa cifra com a estatística oficial, ficaremos abismados ao ver que nela consta o total de US$ 16,3 milhões (0,1% daquele valor), e o peso de 515 toneladas ( menos de 1% do consumo mundial). Observadores respeitáveis consideram que o prejuízo pode chegar a US$ 100 bilhões anuais.

11. Mesmo que o nióbio puro seja cotado a somente US$ 180 por quilo, como indica o site chemicool.com, ainda assim, o valor nas exportações brasileiras do minério bruto correspondia a apenas 1/10 disso. O nióbio não é comercializado nem cotado através das bolsas de mercadorias, como a London Metal Exchange, mas, sim, por transações intra-companhias.

12. Há, ademais, um item, ligas de ferro-nióbio, em que o total oficial das exportações alcança US$ 1,6 bilhão, valor mais de 100 vezes superior à da exportação do nióbio e de minérios a ele associados, em bruto. O mais notável é que o nióbio entra com somente 0,1% na composição das ligas de ferro-nióbio. Vê-se, assim, o enorme valor que o nióbio agrega num mero insumo industrial, de valor ínfimo em relação aos produtos finais das indústrias altamente tecnológicas que o usam como matéria-prima.

13. Note-se também que a quantidade oficialmente exportada do ferro-nióbio em 2010 foi 66.947 toneladas. O nióbio entrando com 0,1% implicaria terem saído apenas 67 toneladas de nióbio, fração ínfima da produção mundial quase toda no Brasil e do consumo mundial realizado nas principais potências industriais e militares.

Campanha nacional

14. As discrepâncias e absurdos são enormes e têm de ser elucidados e corrigidos. Para isso, há que expô-los em grande campanha nacional, que leve a acabar não só com o saqueio do nióbio, mas também com a extração descontrolada de metais estratégicos e preciosos, sem qualquer proveito para o País, o qual, ainda por cima, fica com as dívidas aumentadas.

15. O desenvolvimento dessa campanha deverá também fazer o povo entender que a roubalheira dos recursos minerais só poderá cessar se forem substituídas as atuais estruturas de poder.

* Adriano Benayon é Doutor em Economia. Autor de “Globalização versus Desenvolvimento”, editora Escrituras. abenayon@brturbo.com.br (esta é uma versão modificada e atualizada do artigo “Nióbio a Preço de Banana”, publicado em A Nova Democracia, nº 74, Ano 9, fevereiro de 2011.)



sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Face à crise: quatro princípios e quatro virtudes



Meu sentimento do mundo me diz que quatro princípios e quatro virtudes serão capazes de garantir um futuro bom para a Terra e à vida. Aqui apenas os enuncio sem poder aprofundá-los, coisa que fiz em várias publicações nos últimos anos.

Leonardo Boff

A frase de Einstein goza de plena atualidade: “o pensamento que criou a crise não pode ser o mesmo que vai superá-la”. É tarde demais para fazer só reformas. Estas não mudam o pensamento. Precisamos partir de outro, fundado em princípios e valores que possam sustentar um novo ensaio civilizatório. Ou então temos que aceitar um caminho que nos leva a um precipício. Os dinossauros já o percorreram.

Meu sentimento do mundo me diz que quatro princípios e quatro virtudes serão capazes de garantir um futuro bom para a Terra e à vida. Aqui apenas os enuncio sem poder aprofundá-los, coisa que fiz em várias publicações nos últimos anos.

O primeiro é o cuidado. É uma relação de não agressão e de amor à Terra e a qualquer outro ser. O cuidado se opõe à dominação que caracterizou o velho paradigma. O cuidado regenera as feridas passadas e evita as futuras. Ele retarda a força irrefreável da entropia e permite que tudo possa viver e perdurar mais. Para os orientais o equivalente ao cuidado é a compaixão; por ela nunca se deixa o outro que sofre abandonado, mas se caminha, se solidariza e se alegra com ele.

O segundo é o respeito. Cada ser possui um valor intrínseco, independetemente de seu uso humano. Expressa alguma potencialidade do universo, tem algo a nos revelar e merece exisitir e viver. O respeito reconhece e acolhe o outro como outro e se propõe a conviver pacificamente com ele. Ético é respeitar ilimitadamene tudo o que existe e vive.

O terceiro é a responsabilidade universal. Por ela, o ser humano e a sociedade se dão conta das consequências benéficas ou funestas de suas ações. Ambos precisam cuidar da qualidade das relações com os outros e com a natureza para que não seja hostil mas amigável à vida. Com os meios de destruição já construidos, a humanidade pode, por falta de responsabilidade, se autoeliminar e danificar a biosfera.

O quarto princípio é a cooperação incondicional. A lei universal da evolução não é a competição com a vitória do mais forte mas a interdependência de todos com todos. Todos cooperam entre si para coevoluir e para assegurar a biodiversidade. Foi pela cooperação de uns com os outros que nossos ancestrais se tornaram humanos. O mercado globalizado se rege pela mais rígida competição, sem espaço para a cooperação. Por isso, campeiam o individualismo e o egoismo que subjazem à crise atual e que impediram até agora qualquer consenso possível face às mudanças climáticas.

Os quatro princípios devem vir acolitados por quatro virtudes, imprescindíveis para a consolidação da nova ordem.

A primeira é a hospitalidade, virtude primacial, segundo Kant, para a república mundial. Todos tem o direito de serem acolhidos o que correspode ao dever de acolher os outros. Esta virtude será fundamental face ao fluxo dos povos e aos milhões de refugiados climáticos que surgirão nos próximos anos. Não deve haver, como há, extra-comunitários.

A segunda é a convivência com os diferentes. A globalização do experimento homem não anula as diferenças culturais com as quais devemos aprender a conviver, a trocar, a nos complementar e a nos enriquecer com os intercâmbios mútuos.

A terceira é a tolerância. Nem todos os valores e costumes culturais são convergentes e de fácil aceitação. Dai impõe-se a tolerância ativa de reconhecer o direito do outro de existir como diferente e garantir-lhe sua plena expressão.

A quarta é a comensalidade. Todos os seres humanos devem ter acesso solidário e suficiente aos meios de vida e à seguridade alimentar. Devem poder sentir-se membros da mesma família que comem e bebem juntos. Mais que a nutrição necessária, trata-se de um rito de confraternização.

Todos os esforços serão em vão se a Rio+20 de 2012 se limitar à discussão apenas de medidas práticas para mitigar o aquecimento global, sem discutir outros princípios e valores que podem gerar um consenso mínimo entre todos e assim conferir sustentabilidade à nossa civilização. Caso contrário, a crise continuará sua corrosão até se transformar num tragédia. Temos meios e ciência para isso. Só nos faltam vontade e amor à vida, à nossa, e a de nossos filhos e netos. Que o Espírito que preside à história, não nos falte.

Leonardo Boff é teólogo e escritor

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Desmatamento na Amazônia neste ano já supera o de 2010

FSP 03/08
Dados do Inpe mostram que tendência de queda foi revertida

CLAUDIO ANGELO
DE BRASÍLIA

O desmatamento na Amazônia reverteu sua tendência de queda em 2011.
Dados do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) divulgados nesta terça-feira mostram que o acumulado do ano até agora já foi 6% maior que o do ano passado inteiro.
Foram 2.429 km2 de agosto de 2010 a junho deste ano (11 meses), contra 2.295 km2 de agosto de 2009 a julho do ano passado (12 meses).
Ou seja, mesmo que em julho não caia uma só árvore na Amazônia, 2011 já terá batido 2010. Mas a possibilidade de desmatamento zero é remota, já que o mês de seca costuma ter mais devastação.
Em junho, os dados do sistema Deter indicaram um desmatamento de 312,69 km2. É um aumento de 28% em relação ao mesmo mês de 2010.
O ano passado registrou o menor desmate desde que o Inpe começou a série com satélites, em 1988: foram 6.451 km2 medidos pelo Prodes, sistema que dá a taxa oficial.
O Deter é mais rápido que o Prodes, mas, como não detecta pequenas áreas desmatadas, o governo evita usá-lo para cálculo de área. No entanto, o Deter permite estimar a tendência da devastação.
A série de dados do Deter indica que a reversão da tendência de queda do desmatamento começou em março.
Em abril, quando o debate sobre o Código Florestal começou a pegar fogo no Congresso, a devastação medida pelo Deter cresceu 835%.
Segundo o governo, expectativas do setor produtivo em relação à anistia a desmatadores, somadas ao mercado de commodities agrícolas aquecido e a uma lei de zoneamento complacente em Mato Grosso, foram os culpados.
Mas ações do próprio governo também estão se mostrando corresponsáveis pelo aumento no desmate. Entre os municípios mais desmatados em junho estão Porto Velho (RO) e Altamira (PA), o que pode refletir impactos de novas hidrelétricas na região.
O diretor de Políticas de Combate ao Desmatamento do ministério, Mauro Pires, reconhece a reversão, mas diz que as ações de fiscalização do governo no Pará e em Mato Grosso após o pico de desmatamento de abril estão surtindo efeito.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Japão mostra que é possível viver sem tanta eletricidade



Peter Landers The Wall Street Journal, de Tóquio
01/08/2011

Quando o tsunami de 11 de março tirou de operação mais da metade das usinas nucleares que alimentam a região metropolitana de Tóquio, isso gerou uma das maiores experiências não planejadas já realizadas numa sociedade moderna: será que uma metrópole de 30 milhões de pessoas consegue funcionar depois de perder cerca de um quinto de seu suprimento elétrico?

Depois de um julho calorento no Japão, repleto de dias acima de 32 graus centígrados, a resposta preliminar já está disponível e ela é sim. Não apenas a Tokyo Electric Power Co. tem mantido as luzes acesas o verão inteiro até agora, como teve tanta capacidade extra na maioria dos dias que também poderia abastecer a cidade de Nova York.

O impacto econômico que muitos temiam que viria com os apagões não aconteceu. As bolsas japonesas se recuperaram para praticamente o nível de antes do terremoto, a economia voltou a crescer e algumas empresas foram até revigoradas pela demanda por produtos com consumo menor de eletricidade.

Poupar eletricidade se tornou uma religião nacional. Com muitos aparelhos de ar condicionado limitados a 27 graus centígrados, os empresários abandonaram os ternos habituais em favor de camisas de manga curta incentivadas pela campanha governamental "Super Cool Biz". As montadoras têm sido forçadas a operar nos finais de semana para não sugar eletricidade demais nos horários de pico durante a semana.

O consumo máximo de eletricidade da região de Tóquio tem sido 23% menor neste verão que no do ano passado.

O declínio do consumo elétrico está enfraquecendo o compromisso japonês de décadas com a energia nuclear, que até este ano fornecia quase 30% da eletricidade do país. Se o país conseguir passar pelas últimas semanas de verão com o suprimento elétrico reduzido, o acidente com a usina Fukushima Daiichi provavelmente vai transformar a política energética do Japão. Isso terá consequências mundiais, já que muitos países estão repensando a energia nuclear diante do pior desastre radioativo desde Chernobyl, em 1986.

Há uma sensação crescente de que o Japão vai depender cada vez menos das usinas nucleares e pode desligá-las inteiramente um dia, dizem políticos e muitos empresários. A Alemanha e a Suíça já anunciaram seus planos para fechar as usinas, enquanto os líderes dos Estados Unidos e da França, os dois países que mais usam energia nuclear, dizem que planejam manter seus reatores em funcionamento.

"No médio e longo prazo é desejável progredir para diminuir a energia nuclear com o fechamento de nossos reatores mais antigos e o incentivo a fontes renováveis", afirmou a Associação de Executivos do Japão num comunicado após sua reunião de julho.

Há quem queira ainda mais. "Acho que é melhor nem ter energia nuclear", disse Hiroshi Mikitani, o bilionário de 46 anos que comanda a empresa de comércio eletrônico Rakuten Inc., e também um dos maiores expoentes de uma nova geração de executivos japoneses. Mikitani disse que não é a favor de fechar todas as usinas nucleares de vez, mas que os acontecimentos do verão abalaram a confiança que os japoneses tinham na indústria nuclear.

O sucesso do Japão em evitar um apagão se deve tanto à oferta maior quanto à demanda menor. A Tokyo Electric Power, conhecida como Tepco, correu para reativar velhas termelétricas a gás e a carvão, interrompendo rapidamente os apagões programados que Tóquio enfrentou nos primeiros dias depois do terremoto. Enquanto isso, a campanha para poupar eletricidade reduziu em 10.000 megawatts a demanda da região de Tóquio nos horários de pico de vários dias.

Essas medidas têm suas desvantagens. As termelétricas emitem mais gases do efeito estufa e o Japão precisa importar o combustível para elas. Isso encarece o custo da eletricidade, embora a alta do iene diminua esse fardo.

E alguns idosos estão exagerando na economia de eletricidade e se arriscam a ter problemas de saúde associados ao excesso de calor. No Palácio Imperial, o imperador e a imperatriz, ambos quase com 80 anos, chegaram a usar apenas velas e lanternas à noite, segundo um porta-voz do palácio. Ambulâncias trouxeram 22.418 pessoas com problemas médicos ligados ao calor para os hospitais até 24 de julho, segundo a Agência de Gerenciamento de Incêndios e Desastres do Japão. Quase metade era de idosos e 43 pessoas morreram. O número de pacientes sofrendo com o calor é mais de 50% maior que o do ano passado, mas o total de mortes é um terço menor.

Os executivos das empresas de eletricidade e alguns líderes empresariais dizem que o esforço para poupar eletricidade, obrigatório para as grandes empresas na região de Tóquio, atrapalha a produção a gera incerteza. "Acho que é uma conclusão apressada dizer que não precisamos de usinas nucleares porque temos eletricidade suficiente", disse ao Wall Street Journal Zengo Aizawa, vice-presidente executivo da Tepco e um dos principais executivos do setor nuclear do país. "O Japão é um país que vive de produzir coisas, e a produção está sofrendo muito com isso."

Mesmo assim, para um corte tão grande no consumo de eletricidade, o prejuízo à economia parece relativamente pequeno.

O vice-presidente do banco central japonês, o Banco do Japão, Hirohide Yamaguchi, disse em 20 de julho que a escassez de eletricidade "não deve restringir a atividade econômica até o ponto que se esperava antes", e o BC prevê uma recuperação moderada nos próximos meses e crescimento de 2,9% ano que vem. A capital japonesa está funcionando praticamente como de costume, com filas nas lojas de eletrônicos e trens lotados para as áreas de recreação.

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